*Por Marcus Garcia

O mercado continua precisando de profissionais tecnicamente competentes, com bom relacionamento e entendimento de negócio. Conhecer arquitetura, automação, dados, produtividade e inteligência artificial deixou de ser um diferencial. Durante muito tempo, o profissional de tecnologia era reconhecido pelo domínio técnico. Quem dominava os fundamentos com desenvoltura já estava à frente de outros profissionais. Isso continua importante, mas deixou de ser suficiente.

Venho de uma trajetória técnica, com mais de vinte anos trabalhando com engenharia de software e transformação digital. Publiquei livros, escrevi artigos, dei palestras e participei de muitos projetos, em alguns casos de operações inteiras. Por isso, não faço parte do grupo que acredita que o profissional de tecnologia precisa deixar de ser técnico.

Ele precisa conhecer segurança, dados, integrações, desenvolvimento e as possibilidades que a inteligência artificial traz a cada dia. O problema aparece quando isso passa a parecer suficiente. Tenho visto profissionais tecnicamente sólidos sem nenhuma interlocução com as áreas de negócio, com dificuldade para responder perguntas que um assistente de negócio resolve com facilidade. Poucos sabem dizer quanto uma solução reduz de custo, quanto risco elimina, quanto tempo a empresa ganha, qual processo melhora e como os resultados serão medidos. Já vi propostas morrerem depois de perguntas simples como essas ficarem sem resposta, geralmente por dificuldade de traduzir a solução para o time de negócio.

O que o negócio espera da tecnologia

Essa dificuldade aparece porque poucos profissionais entendem o que a empresa está buscando comprar. A pesquisa “Agenda de Negócios”, da Deloitte Brasil,  realizada em 2025, que ouviu 402 empresas com receita somada equivalente a 12% do PIB brasileiro, mostra que o aumento de produtividade é a principal razão para investir em tecnologia, seguido por redução de despesas, crescimento de receita e melhoria na experiência do cliente.

As diretorias compram resultados. Produtividade, redução de despesas, crescimento de receita e melhoria na experiência do cliente pesam mais na decisão do que o nome da tecnologia por trás da solução. Parece óbvio, mas ainda existem projetos em que usar a tecnologia A ou B se torna mandatório por razões que ninguém consegue explicar direito.

Às vezes, a melhor recomendação é não implementar nada novo, e essa conclusão só se sustenta quando vem apoiada em evidência. Dizer isso ao cliente exige maturidade de negócio além do domínio técnico.

Domínio técnico e visão de negócio andam juntos

Essa leitura antiga ainda aparece em muitos profissionais de tecnologia. Eu mesmo pensava assim anos atrás. Hoje, o mercado está cheio de apresentações bem construídas, com o vocabulário da moda, mas incapazes de sustentar uma discussão técnica por mais de dez minutos. O conhecimento técnico continua necessário. O que falta é traduzir essas tecnologias para quem toma a decisão no negócio.

Um levantamento feito no ano passado pela PwC chega a uma conclusão semelhante. À medida que a separação entre TI e as demais áreas diminui, cresce a procura por profissionais que combinem competência técnica e visão de negócio. Isso pede compreensão sobre como margem, receita, prazo, risco e produtividade pesam nas decisões da empresa, sem exigir que um desenvolvedor vire contador ou que um arquiteto de soluções decore o EBITDA do cliente. Sem essa compreensão, o profissional pode dominar a solução e ainda assim não entender o problema que precisa resolver.

O relatório de 2026 da KPMG mostra a distância entre testar uma tecnologia e transformá-la em resultado. Na pesquisa com 2.500 executivos de 27 países, 74% disseram que seus projetos de inteligência artificial já entregavam algum valor ao negócio, mas apenas 24% conseguiam obter retorno em vários casos de uso.

Falar a língua do negócio começa por fazer perguntas que muitos profissionais de tecnologia ainda evitam. Existe uma diferença entre o profissional que recebe um escopo pronto e aquele que ajuda a construir esse escopo. O primeiro pergunta qual tecnologia deve implementar. O segundo pergunta por que o projeto existe. Um discute ferramenta, o outro discute resultado.

A tecnologia se tornou importante demais para continuar isolada dentro da TI. O profissional que fala apenas de tecnologia carrega uma lacuna, falta o conhecimento do negócio em que está inserido. Quem entende de ferramenta executa o projeto. Quem entende de negócio participa das decisões.

Image by magnific

Sobre Marcus Garcia
Executivo e especialista em inovação tecnológica com mais de 20 anos de experiência no mercado de TI. Como Diretor Comercial da Konia Tecnologia, lidera projetos de transformação digital baseados no ecossistema Microsoft, entregando soluções completas em DevSecOps, automação (RPA), inteligência artificial e desenvolvimento low-code/no-code. Com livros técnicos publicados e dezenas de artigos em veículos como DevMedia, Linha de Código e MSDN Magazine Brasil, Marcus é reconhecido por traduzir a complexidade tecnológica em estratégias eficientes de negócios. Além do trabalho corporativo, é um mentor ativo e criador de treinamentos em TI, investindo na formação de profissionais para que dominem as ferramentas mais avançadas do mercado e gerem impacto direto, mensurável e duradouro.